Temporada 2019
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PRAÇA JÚLIO PRESTES, Nº 16
01218 020 | SÃO PAULO - SP
+55 11 3367 9500
21
mar 2019
quinta-feira 10h00 Ensaio Aberto
Ensaio Aberto: Abertura da Temporada 2019


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Isaac Karabtchevsky regente
Augustin Hadelich violino


Programação
Sujeita a
Alterações
Heitor VILLA-LOBOS
Sinfonia nº 6 – Sobre as Linhas das Montanhas: 2º movimento (Lento)
Jean SIBELIUS
Concerto Para Violino em Ré Menor, Op.47
Antonín DVORÁK
Sinfonia nº 6 em Ré Maior, Op.60

 

Durante o Ensaio podem acontecer pausas, repetições de trechos

e alterações na ordem das obras de acordo com a orientação do regente. 

INGRESSOS
  R$ 15,00
  QUINTA-FEIRA 21/MAR/2019 10h00
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil

Por razões familiares, a Regente Titular e Diretora Musical da Osesp, Marin Alsop, não poderá vir ao Brasil para reger a abertura da Temporada 2019 nos dias 21, 22 e 23 de março. Em substituição, o maestro Isaac Karabtchevsky – um dos mais estimados nomes da música brasileira –, que já estará conosco por conta das atividades da Semana Camargo Guarnieri, aceitou assumir o comando dos três concertos (mais o matinal de domingo). A programação ganha na abertura o “Lento” da Sinfonia nº 6, de Heitor Villa-Lobos – gravada pela Osesp, sob a regência do próprio Isaac, num projeto consagrado por público e crítica; segue-se, como orginalmente previsto, o Concerto Para Violino, de Sibelius, com o solista Augustin Hadelich, outro parceiro regular da Osesp; e, na segunda parte, em vez da Sinfonia nº 2, de Rachmaninov, a Sinfonia nº 6, de Dvorák. Marin Alsop retorna na semana seguinte para as apresentações previamente anunciadas.

Notas de Programa

HEITOR VILLA-LOBOS [1887-1959]
Sinfonia nº 6 - Sobre a Linha das Montanhas: 2º Movimento (Lento) [1944]
12 MIN


JEAN SIBELIUS [1865-1957]
Concerto Para Violino em Ré Menor, Op.47 [1903-4]
- ALLEGRO MODERATO
- ADAGIO DI MOLTO
- ALLEGRO MA NON TANTO
31 MIN


/ INTERVALO


ANTONÍN DVOŘÁK [1841-1904]
Sinfonia nº 6 em Ré Maior, Op.60 [1880]
- ALLEGRO NON TANTO
- ADAGIO
- SCHERZO (FURIANT): PRESTO
- FINALE: ALLEGRO CON SPIRITO
41 MIN

 


Heitor Villa-Lobos
Sinfonia nº 6 Sobre a Linha das Montanhas: 2º Movimento (lento)


Heitor Villa-Lobos é tido, por consenso, como o principal compositor nacionalista a surgir na América Latina. Nos dias de hoje, suas obras mais bem conhecidas ainda são aquelas em que a voz nacional fala de maneira mais vibrante, sobretudo as grandes séries dos Choros e das Bachianas Brasileiras. Essa percepção, contudo, é um tanto distorcida, uma vez que deixa imensa porção de sua obra na sombra, notadamente suas doze sinfonias (ou melhor, onze, já que a Quinta se perdeu), obras das quais ele claramente se orgulhava.


O esforço de Villa-Lobos para estabelecer uma voz distintamente brasileira é apenas parte de seu projeto estético. Ele tinha consciência da carga histórica de um argumento sinfônico, como deixou claro em uma palestra proferida em 1958: “[Uma sinfonia] é uma música pela música. Música superior, música intelectual, não é para ser assobiada por todo mundo. [Uma] sinfonia... se alguém tenta empregar efeitos especiais, de tipo exótico, folclórico ou algo parecido, nem acho correto chamá-la de sinfonia”.


Suas quatro primeiras sinfonias foram compostas antes de 1920, e as sinfonias de números 6 a 12 foram escritas depois de 1944. O hiato de 24 anos pertenceu a obras ostensivamente nacionalistas e experimentais, explorando formas pouco ortodoxas. A Sinfonia no 6 — “Sobre a Linha das Montanhas” (1944) inaugura seu estilo sinfônico maduro e em parte deriva de seu trabalho educacional. “Milimetrização” foi o processo que ele inventou para obter uma melodia a partir de uma imagem. Num papel quadriculado transparente, ele destinava as linhas verticais para as alturas e as horizontais para as durações; a transparência era sobreposta a uma foto, cujos pontos principais determinavam o contorno melódico. Um educador gabaritado podia então harmonizar a melodia frequentemente insólita assim obtida; o processo era pensado como forma de estímulo à criatividade das crianças. Villa-Lobos só utilizou esse método duas vezes em composição de músicade concerto; na peça para piano New York Skyline Melody (1939) e nessa sinfonia. Posteriormente, um procedimento análogo seria por vezes adotado por compositores como Messiaen e Cage.


Os vários temas dessa sinfonia foram aparentemente extraídos de gráficos feitos a partir de fotos da Serra dos Órgãos, do Corcovado e do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, mas as imagens em questão nunca vieram a público. A estátua art déco do Cristo Redentor só foi colocada no topo do Corcovado em 1931, e é de se perguntar se ela não determinou o perfil de qualquer um dos temas. São de fato alguns dos mais angulosos em sua produção, e constituem um paradoxo para um compositor que manifestou desdém por “músicas de papel, que nascem no papel e que morrem no papel”. [...]


[2011]


Excerto de texto do encarte do CD “VILLA-LOBOS: Sinfonia no 6 — ´Sobre a Linha das Montanhas´; Sinfonia no 7” (2011), da coleção de 6 CDs com a integral das sinfonias de Villa-Lobos gravadas pela Osesp sob regência de Isaac Karabtchevsky.


FÁBIO ZANON
É violonista, professor da Royal Academy of Music de Londres

e autor de Villa-Lobos (Coleção “Folha Explica”, Publifolha, 2009).

Desde 2013, é coordenador artístico-pedagógico

do Festival de Inverno de Campos do Jordão.


***


Jean Sibelius
Concerto Para Violino em Ré Menor, Op.47


Antonín Dvořák
Sinfonia nº 6 em Ré Maior, Op.60


“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.” A frase de Leon Tolstoi se encaixa bem à obra de Jean Sibelius, considerado um dos maiores sinfonistas do século passado, se não o maior. Ele buscou inspiração no Kalevala, o épico mitológico escandinavo, assim como na paisagem peculiar de sua terra natal. Nacionalista romântico assumido, o que lhe valeu reprimendas de muitos colegas e críticos, que o julgavam retrógrado, preso às tradições do século XIX, o compositor procurava a maestria da forma, usando uma linguagem fluida, com muitas referências à cultura nórdica. Vale observar, no entanto, que apesar de ser o nome mais importante da Finlândia, Sibelius vinha de família que pertencia à minoria de língua sueca, veio a estudar na Alemanha, e foi profundamente marcado pela música de compositores russos, como Tchaikovsky, cuja influência é clara no seu concerto para violino, especialmente no movimento final.


Apesar de ter começado os estudos musicais pelo piano, como adolescente Sibelius se encantou pelo violino, que chegou a dominar admiravelmente. Antes de se decidir pela composição, pensava a sério na carreira de violinista profissional. Não é de admirar, portanto, que escreva para o violino com intimidade evidente, e que explore em sua partitura um universo de efeitos e sonoridades. O Concerto em Ré Menor é um dos mais difíceis para o instrumento, e um favorito de plateias no mundo todo. Muitas razões justificam tal popularidade: o virtuosismo instrumental que requer, além de técnica refinadíssima, um temperamento apaixonado; a riqueza da invenção melódica; o rigor da construção formal; a variedade do colorido orquestral; a grandiosidade deliberada; e o traço evocativo, dramático, que traz à mente imagens de estepes geladas, cheias de abismos, terrenos escorregadios, lobos famintos e perigos de toda sorte.


A música é organicamente construída, sem seguir o formato padronizado da forma-sonata, e elabora lenta e meticulosamente os motivos que crescem e se aglutinam como um tecido lógico, em crescendo emocional que cria impacto inescapável. Em que pese a escrita mais sombria do acompanhamento, ao violino e à orquestra são dados materiais igualmente importantes, e assim se estabelece um cunho verdadeiramente sinfônico, sem nada da leveza habitual das partes orquestrais de concertos. A peça caminha de tenso drama existencial, com uma cadenza estendida ocupando a maior parte do movimento central, para o caráter escancaradamente cigano, quase paganiniano, do terceiro, uma polonaise cheia de fogos de artifício e sensualidade, em progressão que parece tão natural que em nenhum momento sentimos que o virtuosismo é um fim em si.


Depois de uma estreia recebida com simpatia, mas não entusiasmo, em parte por falha do solista que não estava à altura da partitura, em parte pela escassez do tempo de ensaio, Sibelius fez várias revisões que visavam uma depuração das ideias, e que resultaram no concerto que se conhece hoje. Para muitos, é possível identificar na música circunstâncias da própria vida do mestre, que no momento da criação da obra já era aclamado como o grande compositor de seu país, tinha vida bastante confortável e casamento estável, mas ao mesmo tempo sofria com a tendência à melancolia, refletida no alcoolismo e na insolvência financeira que causavam preocupação à família e aos amigos. O concerto se desenvolve sobre bases formais e harmônicas sólidas, mas é permeado de uma tensão constante, de angústia e instabilidade que fazem com que, apesar do  brilho e da exuberância excitante, chegue perto da alegria, mas nunca a atinja verdadeiramente.


Em 1901, em visita a Praga, Sibelius aproveitou a ocasião para estreitar o contato com o famosíssimo Quarteto da Bohemia, que havia conhecido pouco antes e para quem desejava compor. O violista do quarteto era Josef Suk, genro de Dvořák, que apresentou o tcheco ao finlandês. Apesar da diferença de idade, os dois compositores criaram uma conexão imediata, e perceberam muitas afinidades entre si. A posteridade também enfatizou essas afinidades, ao classificar ambos como os maiores sinfonistas de suas respectivas pátrias, ao considerá-los relativamente conservadores e até mesmo ao exaltá-los ou criticá-los por serem nacionalistas demais, ou ironicamente, nacionalistas de menos.


O Concerto Para Violino de Sibelius e a 6ª Sinfonia de Dvořák estão separados por 24 anos. Mas têm pontos em comum, além da verve embebida no folclore e da influência dos grandes sinfonistas de antanho. Se no caso de Sibelius esses eram, em especial, Borodin e Tchaikovsky, a Sinfonia nº 6 de Dvořák paga tributo principalmente a Brahms e Beethoven. As duas obras, longas e ambiciosas, olham para o passado com afeto e nele lançam suas raízes. E ambas demoraram a obter sucesso, mas atualmente são, indiscutivelmente, standards do repertório orquestral.


Aí terminam as semelhanças. Se na obra de Sibelius existe uma melancolia difusa, e os momentos de alegria parecem estar conectados ao passado, à memória da felicidade, mais do que a um sentimento presente de contentamento, a Sinfonia nº 6 de Dvořák extravasa uma euforia verdadeira e contagiante, o bom humor que é justamente uma das marcas reconhecíveis do compositor.


Escrita em 1800 em tempo recorde — menos de dois meses! — para a Orquestra Filarmônica de Viena, por encomenda de seu maestro Hans Richter, um dos grandes apoiadores de Dvořák, ela foi menosprezada pelos músicos da orquestra, que não viam por quê repetir em sua programação um nome que ainda estava se firmando e de quem já haviam tocado uma peça no ano anterior. Havia também uma dose de xenofobia nessa rejeição. No século XIX Viena era o centro mundial da sinfonia, e fazer sucesso na capital austríaca era o passaporte para a fama no meio musical. Mas os vienenses não estavam dispostos a abrir assim tão rapidamente seus corações e ouvidos para os talentos do exterior. A Sinfonia nº 6 acabaria sendo estreada em Praga, já decorrido um ano de sua composição, e Richter só a regeria em Londres, dois anos mais tarde. Sem querer dar o braço a torcer, a Filarmônica de Viena viria a tocar a peça pela primeira vez 38 anos após a morte do compositor. Apesar de ter começado sua trajetória com uma reprovação, a sinfonia logo foi abraçada por colegas, críticos e plateias, e cedo foi reconhecida como obra sólida e bela, pavimentando o caminho para a fama internacional de Dvořák.


O sucesso estrondoso da Sinfonia do Novo Mundo, de 1893, de certa maneira eclipsou um pouco a fortuna da Sinfonia nº 6, porém nela já se evidenciam a maturidade do compositor e seu amplo domínio da forma, sem falar na riqueza da invenção melódica e na perfeição da orquestração. Inspirada na Sinfonia nº 2 de Brahms (cuja voz é relembrada principalmente nos 2 movimentos externos), carrega também traços da Pastoral de Beethoven (no Adágio). Ao mesmo tempo é obra que demonstra claramente a verve e o estilo próprios de Dvořák. Em seus quatro movimentos estão elencados temas que são de um lirismo evidente, que no entanto jamais resvala no sentimentalismo; contrastes bem urdidos entre instrumentações camerísticas e a exuberância do som orquestral inteiramente desfraldado (como no movimento Furiant, baseado em uma dança tcheca); melodias extrovertidas e ingênuas sobrepostas a harmonias muito intensas; uma coerência temática que costura toda a escrita; e principalmente a genialidade do compositor ao usar as particularidades da música folclórica da Bohemia e da Morávia refletidas em um idioma universal, que efetivamente consegue integrar a sua aldeia ao vasto mundo ocidental.


LAURA RÓNAI
É doutora em Música, responsável pela cadeira

de flauta transversal na unirio e professora no

programa de pós-graduação em Música. É também

diretora da Orquestra Barroca da UNIRIO.